Resenha, Resenha de Álbum/DVD — June 1, 2012 at 5:14 pm

Urd do Borknagar – Mitologia, evolução e perfeição

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Nota: 10/10

O Black Metal em sua essência é uma vertente musical isenta de disfarces, ou, para simplificar a expressão, é áspero e cru. Mas é importante ressaltar que apenas em sua “essência” ele é tido desta forma, e que em determinado período, digamos em meados da década de 1990, o elemento distintivo de quase tudo o que conhecíamos por música foi adulterado, contrafeito, ou agrupado a outros gêneros em diferentes camadas. Isto, por sua vez, sofisticou algumas bandas, porém em outros casos, estragou, e em muitos casos, corrompeu a “essência”, causando uma mutação permanente na sonoridade de certos grupos. Obviamente existem aqueles músicos mais puritanos que ainda se comportam de forma incorruptiva, insistindo nas fórmulas básicas, e surpreendentemente não são minoria, mas de modo inevitável caminham pelas sombras do cenário alternativo. Entretanto, o Borknagar fez parte da tempestade de acontecimentos do final do século XX, se deixando influenciar pela tendência do momento, mas de alguma forma eles conquistaram o que poucos conseguiram; eles acrescentaram uma miscelânea de estilos ao Black Metal, sem perder a tal “essência”, fazendo por consequência, que se destacassem da imensidão de genéricos que existiam e existem no âmbito da música extrema.

Desde o início da banda, em 1995, de forma gradativa eles foram adicionando elementos progressivos, sinfônicos, e em meio às passagens velozes e agressivas, melodias enternecedoras. Pessoalmente sempre os considerei competentes, e sempre admirei seu experimentalismo, frequentemente bem sucedido, sobretudo em ‘The Archaic Course’ (1998) e ‘Epic’ (2004), pra não mencionar o dessemelhante, porém contemplativo ‘Origin’ (2006). É sem dúvida uma bela carreira, mas mesmo assim, nada disso tinha ainda me conduzido ao estado de fã…Até agora.

No ano passado, a banda iniciou a gravação de seu mais recente álbum, com talvez o melhor time de sua história. ICS Vortex (ex-Arcturus, ex-Dimmu Borgir) havia retornado definitivamente, fornecendo seus vocais dramáticos, enquanto Andreas Hedlund, vulgo Vintersorg, que se juntou à banda para a turnê do ‘Universal’ em 2010, agora se afirmava como um membro oficial, sem falar de um terceiro vocalista, Lazare (Solefald), também grande criador de formidáveis linhas de teclado e melodias de arco. Tudo isso somado à mente amadurecida do guitarrista fundador Øystein G. Brun fizeram deste novo trabalho intitulado ‘Urd’ uma incontestável obra prima. Além de toda a experiência dos integrantes e do esmero dedicado às músicas, o trabalho também apresenta um conceito literário muito interessante, aplicando a mitologia nórdica às nossas vidas reais.

“Urd” é o nome dado ao CD e também é o nome de uma das Nornas, que são as deusas da mitologia nórdica que administram os destinos de todos os seres, incluindo outros deuses. Ao todo as Nornas são três, sendo que Urd é a representante do passado. Esta simbologia foi usada no álbum como analogia para o DNA, que deriva de uma única célula orgânica primordial e mostra cientificamente a origem de todos os seres vivos, remetendo a uma forte conexão com a natureza. Este tema é utilizado também nas letras do CD, como em ‘Roots’ e ‘In a Deeper World’.

O CD inicia de forma grandiosa, com uma velocidade de quem diz: “Nós somos uma banda de Black Metal”, porém logo seguida surge a melódica voz de Vintersorg, denunciando a atmosfera consolidada por típicas bandas de ‘Avant-garde Metal’, e executada com maestria pelo atual Borknagar. A segunda música chama-se ‘Roots’ e explora elementos que vão da beleza à crueldade, do começo ao fim. E por falar em fim, esta música traz um final no mínimo sublime, com ICS Vortex cantanto o trecho “There is a path running free…”. Simplesmente excepcional (se é que podemos usar qualquer variável da palavra “simples” neste álbum).

‘The Beauty of Dead Cities’ vem com melodias amigáveis nos vocais, porém o instrumental apresenta uma complexidade de timbres e ritmos que se misturam, mudam e se movem o tempo todo, e nos faz pensar que esses caras devem ter dado seu sangue no estúdio. Não estou falando de virtuosismo e técnica, mas sim de harmonia e riqueza, que é a especiaria da banda, e sem dúvida, de ‘Urd’.

‘The Earthling’- seus primeiros dois minutos de introspecção são apenas um preparo para a violência que se sucede, e depois intercala com melodias, solos de guitarra, vozes guturais, e diversas outras características que devem ser presenciadas ouvindo e não lendo. ‘Frostrite’ é o ápice. A melhor performance da carreira de Vortex, que canta em tons altíssimos, com timbres mais hipnóticos do que nunca, e te transporta para as geladas terras norueguesas como nenhuma outra.

‘Urd’ é um álbum paradoxal; maligno e ameno, agressivo e sereno, diversificado e uniforme. É a tempestade e a bonança passando diante de seus olhos simultaneamente. Tem uma quantidade indescritível de riffs em cada faixa e a cada segundo mil coisas acontecem ao mesmo tempo. E tudo isso sem parecer confuso. Na verdade, confuso é tentar explicar um álbum que é puro sentimento. Mas é importante acrescentar que, o mesmo trabalho que ele teve pra ser gravado, deve ser dedicado para ouvi-lo. Não é possível encontrar tudo o que ele tem pra oferecer, se não for degustado com calma e atenção. Caso eu não tivesse escutado com o respeito devido, não teria tido esta opinião, pois não seria possível desvendar todos os ornamentos implícitos na obra. Portanto respeitem o ‘Urd’ porque ele merece.

Integrantes:

Øystein G. Brun – Guitarra
Vintersorg – Vocal
ICS Vortex – Vocal, Baixo
Jens F. Ryland – Guitarra
Lars A. Nedland – Teclado, Backing Vocal
Baard Kolstad – Bateria

Track listing:

01.Epochalypse
02.Roots
03.The Beauty of Dead Cities
04.The Earthling
05.The Plains of Memories
06.Mount Regency
07.Frostrite
08.The Winter Eclipse
09.In A Deeper World