Resenha — December 3, 2013 at 10:27 pm

Max Cavalera: A história de suas raízes sangrentas

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É incontestável a importância de Max Cavalera  para o desenvolvimento do Heavy Metal nacional. Ele esteve presente no alvorecer da cena brasileira, e se destacou nesse meio. Passou com sua banda pelo processo de internacionalização, e em meio a grandes nomes do Metal mundial, se destacou também. Deixou fluir seu lado artístico e experimental em um gênero no qual pode ser condenável a prática de tamanhas ousadias, e acabou gerando tendências pelo mundo. Foi iconizado. Envolveu-se em brigas familiares, alcoolismo e polêmica. E agora, em um momento do maior tranquilidade, resolveu contar ao mundo a história de sua agitada vida, através do livro “My Bloody Roots”.

É interessante conhecer a versão de Max sobre a sua própria vida, sem estar sob a influência de perguntas capciosas da mídia, como de costume. No decorrer da leitura, muitos detalhes pertinentes e curiosidades são revelados, como o fato de ele ter sido batizado no vaticano, ou o impacto que a morte de seu pai causou em sua vida, transformando um garoto estudioso e feliz em um jovem com ódio transbordando, além do drama do dia fatídico da morte de Dana Wells.

“My Bloody Roots” foi construído com uma seleção de estórias que relatam desde a infância do pequeno Massimiliano até os dias atuais. Admito que não gosto de tudo o que já foi criado em sua carreira musical, e creio que isso seja compreensível, pois estamos falando de um músico que passeia por diversos ambientes diferenciados quando se trata de composição. Mas respeito sua figura e o que ela representa, acima de qualquer outro nome aqui nas nossas terras tropicais. Max foi o baluarte da popularização do Metal nacional nos anos 80, e graças às suas atitudes e sua forte crença em seu próprio trabalho, o SEPULTURA foi inserido no mapa, e o Brasil também. Por isso, a parte que considerei mais interessante no livro é o período do início do SEPULTURA, quando tudo estava começando, e bandas como DESTRUCTION (que inspirou o nome “Bestial Devastation” com seu EP “Eternal Devastation”) SODOM e o próprio DORSAL ATLÂNTICA eram a sua referência. Tais bandas, assim como o SEPULTURA eram feitas puramente de atitude. A musicalidade em si era um segundo plano. Atitude era o principal. E nesse momento, Max fez a diferença.

Uma das partes do livro mais esperadas por mim, a qual cheguei sedento para ler, é a que retrata o momento em que o SEPULTURA sofre a sua dramática cisão com a saída de Max e a empresária Glória. Esperava ver uma declaração mais esclarecedora das coisas, no entanto, pouca coisa nova foi dita. Aparentemente Max ainda não entendeu o porquê de seus companheiros de banda se recusarem a continuar com uma empresária que fez uma trabalho tão bom – e nisso eu concordo – e os conduziu ao topo. O frontman parece não ter enxergado que algo de fato aconteceu na época para causar a insatisfação de seus companheiros. É uma mescla de indignação e ingenuidade. Mas uma coisa fica bem clara; a tristeza que permeia essa pessoa é forte, e o livro torna isso mais que compreensível. O SEPULTURA foi todo criado e moldado pela alma de Max Cavalera. Sua personalidade forte transcendeu sua mente e foi replicada em forma de música. Portanto, a sensação de posse jamais abandonou o músico.

No decorrer da obra, conheci um Max muito gentil e sereno. Um Max que já fez muita merda na vida, mas que foi tolerado por seus entes queridos graças ao seu caráter nobre, agradável e emotivo. Um Max que não pára um segundo sequer de compor músicas baseadas em seus sentimentos sempre expostos. Ou seja, conheci a pessoa Max Cavalera e seu lado mais humano. Esse tipo de leitura nos aproxima ainda mais do autor, e no final, a gente tem vontade de ouvir SEPULTURA, SOULFLY, NAILBOMB e CAVALERA CONSPIRACY.

A leitura de “My Bloody Roots” é tranquila e prazerosa. Não necessita ser um intelectual para encarar este livro. É um processo descontraído, como se o próprio Max estivesse conversando com você e lhe falando sobre sua vida. Recomendo, não apenas para os fãs do Max, mas também para qualquer um que se interesse pela história do Heavy Metal brasileiro.