Resenha — March 18, 2016 at 8:06 pm

ELE

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LGBT_ELE

**Guest post escrito por Vee da página LGBT Headbangers Brasil**

Sábado a noite e eu estou profundamente estressada e magoada. Com certeza não era desse jeito que eu queria começar as minhas férias, depois de tanto trabalho e tanto estudo no curso técnico. Eu sinceramente defino como um show de horrores aquilo que eu vi nos últimos dias, não por causa do que o tal padre fez, mas pelo que eu vi muita gente da comunidade LGBT fazendo.

Eu, trans assumida, assim como quase todo mundo, já fui uma pessoa transfóbica. Não é pra menos: qual imagem nós temos e aprendemos desde cedo da comunidade trans? Pessoas drogadas, que vivem da prostituição e usam silicone industrial pra modelar seus corpos = seres que vivem na noite, que são símbolos da feiura e que, além de tudo, são caricaturas das mulheres. Sim, estou falando das travestis.

Antes de eu falar qualquer coisa a mais eu quero que fique bem claro que eu não sou “doutora do gênero”, assim como vi vários homens cis gays dizendo. E também não nasci sabendo de tudo: aliás, essa foi uma das desculpas que usavam para me perseguir na escola, porque eu era a “sabe-tudo”. Como diria meu avô paterno – que não é um exemplo de pessoa, mas eu o cito mesmo assim: A gente nasce, cresce, estuda, passa a vida estudando e morre sem saber de nada. Nós só conhecemos o mundo a nossa volta, não mais.

Milhares de travestis são expulsas de casa todos os anos, meses e dias no Brasil. Elas são adolescentes, crianças, que são perseguidas e agredidas pra “largar de ser viado e virar homem”. A transfobia nasce no momento em que a identidade delas não é reconhecida e elas passam a sofrer não só violência transfóbica, como também homofóbica. Passadas essas agressões, pra onde vão essas crianças? Pra rua. O vazio emocional é preenchido pelo consumo de drogas e por uma nova família que elas encontram no gueto. Sem escola, sem família que a sustente, elas vão buscar sobrevivência na avenida, na prostituição – mas antes de ir pra avenida elas precisam de um atrativo corporal, portanto, além do uso de hormônios sem acompanhamento médico, elas fazem implantes de silicone industrial para modelar seus corpos. Passam as noites nas beiradas de calçadas, entrando e saindo de carros e de quartinhos de zonas, realizando todo e qualquer fetiche sórdido dos homens que as procuram. Vez ou outra ela não é paga pelo programa e vai parar na delegacia e na tv por conta de vinte reais, ou também vão parar na delegacia por roubo e formação de quadrilha. Também, eventualmente, depois do programa, elas são mortas arremessadas de um caminhão em movimento, a facadas, a pauladas… De diversas formas, sempre com requinte de crueldade. Mutilações não são raras.

Essa não é a minha história. Acordo todo dia às 5 horas da manhã, pego minha bolsa, passo na catraca da CPTM com a minha carteira de estudante com o meu nome social estampado em caixa alta (caps lock) que eu guardo junto com a minha carteirinha da Biblioteca de São Paulo, que também tem o meu nome escrito. Meus dois documentos de identificação. Fico das oito da manhã até o meio-dia e meio no curso técnico, depois volto pra casa. Minha história é uma exceção em comparação com tantas outras que seguem o mesmo roteiro acima – as quais, infelizmente, esse texto não vai chegar.

Mesmo com uma história semelhante muitas ainda têm forças pra prestar serviço comunitário, trabalhando para ajudar a comunidade a sua volta e as pessoas. É o caso da Gilmara Cunha que foi condecorada com a Medalha Tiradentes; é o caso de Luana Muniz que ganhou visibilidade essa semana depois do encontro e uma foto inesperada com um padre cis. Mesmo com todas as porradas que a gente recebe da vida, muitas não se deixam abalar, erguem a cabeça e a voz como Indianara Siqueira. Todas elas não abaixam a cabeça para o preconceito que, assim como elas, tem nome e sobrenome: TRANSFOBIA.

Transfobia que se traduz na forma de tantas agressões diárias, físicas, psicológicas, emocionais, sexuais… Mas talvez uma das piores é a verbal que vem numa forma muito simples, um pronome, do qual nenhuma de nós escapa – nem mesmo eu, na sala de aula: uma vogal fechada emendada a uma consoante lateral e que finaliza voltando à mesma vogal fechada; “ele”.

“Ele” carrega consigo aquele grito do pai, aquele tapa da mãe, aquela roda de crianças te empurrando e batendo no recreio; carrega junto as saídas escondidas com roupas femininas e as fogueiras onde as mesmas são queimadas pela família junto com bijuterias e perfumes e maquiagens baratos. “Ele” é o resumo de “Você está ridículo com essa roupa” e “Você nunca vai ser mulher”. Um pronome, apenas um pronome, três letrinhas que podem parecer não ter importância, mas que está enxarcado com o sangue das Leelahs Alcorns que se matam todos os anos porque não vivem seus verdadeiros eus; o sangue, a dignidade e a humanidade das Verônicas Bolinas que são torturadas e humilhadas quando são presas (A gente já deixa vocês existirem no gueto da sociedade e vocês ainda têm a pachorra de querer cometer um crime?), isso quando não são Lauras Vermonts e são mortas por aqueles que supostamente deveriam protegê-las; é o “ele” que prepara a faca dos justiceiros que atinge as Vivianys Belebonis crucificadas. Todos os dias. Uma palavra tão simples, mas que dependendo da forma que for usada, pode ser tão humilhante quanto uma escarrada na cara.

Ninguém nasce sabendo nada, nem mesmo a identidade de gênero, nem mesmo a transfobia. Identidade a gente descobre, constrói e exterioriza; transfobia a gente aprende. Pra vocês um pronome não tem importância, pra gente é uma agressão diária. E reforçar para uma plateia de milhares de expectadores que “esses rapazes” também são seres humanos é dar um passo pra frente (admitindo seu preconceito) e dois pra trás (reforçando que nós até somos seres humanos e que somos realmente aquilo que o dicionário e todos a nossa volta disseram a vida toda: que somos homossexuais de vestido).

Mas pra vocês tem algum problema isso? Já sofreram ferimentos tão profundos com essas três letrinhas? Não, né?

Padre Fábio de Melo, você não acrescentou em nada na minha vida. Nem fez favor algum.

- Vee

 

Confiram o MegalomaniaCast sobre o tema LGBT com a participação da própria Vee como convidada.